Mochilas ergonómicas para bebés pequenos

por Gosia Krogulec 

Eu enquanto consultora, tal como a escola de babywearing ClauWi, recomendo o uso de mochilas ergonómicas a partir do momento em que o bebé se consegue sentar sozinho e aguentar-se sentado sem apoio. Esta recomendação por vezes gera alguma confusão nos pais; as próprias marcas de mochilas como Manduca, Ergobaby ou Tula, recomendam o uso das suas mochilas a partir de 3,5 kg, e para este fim vendem redutores de mochilas (menos a Manduca que tem um redutor incorporado).

Então afinal, como é que é, pensam os pais: a marca diz que podemos usar e a consultora diz que não. Quem tem razão?

Eu vou então mostrar a minha perspectiva de consultora, e explicar porque o uso de mochilas clássicas com bebés que ainda não sentam sozinhos não é recomendável.

Não é proíbido, mas há melhores soluções

Em primeiro lugar, não se trata de nenhuma proibição. Ninguém diz que não podem usar a vossa mochila com o vosso recém-nascido. Em vez disso, eu digo que há soluções melhores do que uma mochila para o transporte de um recém-nascido. Se vocês, mesmo sabendo que um sling ou pano ou até um mei-tai é mais saudável para um recém-nascisdo, optem por usar uma mochila, óptimo. É melhor do que teimar em usar um pano e desistir do babywearing porque não gostaram dele.

Se pedirem o meu conselho, eu posso trabalhar com vocês para juntos optimizarmos a forma como usam a vossa mochila. Não é, de todo, uma questão de dogma, mas sim de existirem soluções óptimas e outras menos óptimas. Tendo isso em conta, e respeitando as escolhas dos pais, eu enquanto consultora sinto-me na obrigação de informar a quem me pergunta, que um sling de argolas ou um pano são os mais indicados para um recém-nascido, pois a razão de ser da minha profissão é mesmo essa, informar sobre as melhores soluções de babywearing disponíveis para cada fase do crescimento do bebé.

E porque é que uma mochila não é o mais indicado?

1. Cria uma abertura das pernas muito superior à abertura natural no bebé. Isso faz o quadril todo reposicionar-se, e a bacia inclina-se ligeiramente para trás, e ao mesmo tempo a parte lombar da coluna endireita-se. Esta extensão da lombar implica que a coluna toda se endireite, e até a cabeça as vezes cai para trás, em vez de cair para a frente do corpo. O melhor num recém-nascido é estabilizar a parte lombar em cifose natural enquanto está a ser carregado.

2. Cria pressão na região sacral do bebé. A mochila, por causa da sua construção (nomeadamente o cinto e as duas fitas que ligam a alça e o painel por cima das pernas do bebé) cria pressão em demasia no sítio onde a coluna e a bacia se juntam. Isso faz com que o bebé fique pressionado nessa região e espalmado contra o nosso corpo. Isso estimula a extensão da coluna mais ainda, e pressiona as pernas para uma abertura grande demais. Como podem ver na imagem, as pernas da boneca Laurinha na mochila Ergobaby estão praticamente em espargata. A Laurinha tem mais ou menos 1 mês de idade 😉mochila-ergonomica-com-bebe-de-1-mes

3. Não garante estabilização adequada da coluna e da cabeça. A maior parte das mochilas apenas tem ajuste das alças. Isso não é suficiente para garantir a estabilidade nas costas do bebé, principalmente na parte superior. A parte inferior encontra-se pressionada contra o corpo do adulto, e a parte superior e a cabeça estão sem o apoio adequado. Muitas vezes o bebé “cai” dentro da mochila, arredondando muito a parte das costas que não tem apoio; isso pode levar alguns pais a pensar que a posição do bebé é boa, pois ele tem as costas em C, enquanto na verdade o bebé está instável, e se tocar com queixo no peito, pode chegar a ter dificuldades respiratórias.

Ninguém diz que não podem usar a vossa mochila com o vosso recém-nascido. Em vez disso, eu digo que há soluções melhores…

O mesmo acontece quando o bebé, além de estar redondinho (demais) tem os joelhos acima do rabo. Isso normalmente leva os pais a pensar que a posição é boa (pois é essa posição mais fisiológica que o bebé tem num pano com porte canguru, ou um sling de argolas). Mas na verdade, com a abertura grande que a mochila cria, não é fisiológico ter pernas muito fletidas. Tendo em conta a mecânica da mochila e a pressão na região sacral que ela cria, os joelhos em cima do rabo são, na verdade, um sinal que o bebé está instável, sem o apoio adequado nas coxas e nas costas, e está literalmente pendurado pelos joelhos, numa posição pouco fisiológica.

4. Não garante estabilização lateral. Um recém-nascido, que não segura o seu tronco, necessita de alguma forma de estabilização lateral, para não cair para os lados e manter-se simétrico. Maior parte das mochilas não têm nenhum sistema de estabilização lateral, ou seja, não existe nada para criar tensão dos dois lados do painel. As fitas que ligam as alças estabilizam um pouco, mas a parte superior das costas encontra-se mais desprotegida e o bebé corre o risco de instabilidade.

E os redutores não resolvem o problema?

Existe ainda a questão dos redutores. Muitos deles ajudam a minimizar esses inconvenientes das mochilas. Permitem uma abertura das pernas mais pequena, estabilizam melhor as costas e a cabeça.

Mas, sendo sempre um sistema pré-feito, com tamanho único (mesmo que ajustável) nunca se adaptarão na perfeição ao corpo do vosso bebé e o vosso, tal como um sling de argolas ou um pano, e haverá sempre um período durante qual o bebé já está demasiado grande para o redutor, mas ainda está demasiado pequeno para a mochila sem ele.

Um pano ou sling de argolas cresce sempre à medida do vosso bebé, tem a vantagem de ser ajustado prega por prega, o que garante óptima estabilização, permite apoiar a posição natural das perninhas e, através de voltas no tecido oferece estabilização lateral. Além disso é bem mais fresco do que um redutor do género “almofada” (que tem a Ergobaby) e permite contacto pele com pele mais intenso e mais benéfico, do que quando o bebé está embrulhado em redutor volumoso.

E se eu não quiser um pano ou um sling?

Para quem não quer mesmo um pano ou sling – porque não usar um mei-tai ou um wrap-tai? Esses, não sendo tão ideais como pano ou sling, permitem respeitar melhor a fisiologia do bebé. São feitos de tecido mole, sem preeenchimentos, e assim adaptam-se melhor ao corpo e suportam-no melhor. As alças amarram-se com um nó, e não se juntam ao painel, o que permite evitar a pressão no sacro do bebé e possibilitar uma postura melhor. Há mei-tais ajustáveis e evolutivos, que tem ajustes na base e nas alterais, e permitem sempre adaptar o tamanho do painel à fase de desenvolvimento do bebé.

mei-tai-com-bebe-de-1-mes

Contudo, é importante que esses porta-bebés tenham alguma forma de estabilizar as laterais e a cabeça do bebé. É preciso também atenção para que o painel seja de largura adequada (na imagem podem ver que esse mei-tai tem a base larga demais para a Laurinha). Um ajuste na base do mei-tai resolve esse problema.

Porque não desfrutar destas vantagens nos primeiros meses de vida do seu bebé, e aproveitar a praticabilidade da mochila quando o vosso bebé estiver pronto para isso?