Babywearing e o Euro 2016

por Nuno César Nunes  

Sou um entusiasta de babywearing. Se tivesse que explicar o que significa esta palavra entusiasta, diria que acredito que leite materno e por os miúdos no pano são as melhores soluções para a maioria dos problemas. Recentemente com o Euro 2016 vivi um desafio logístico totalmente novo na minha família que me exigiu desenvolver uma nova prática, o bola-wearing, que resolvi partilhar.

 

Os jogos são sempre à hora dos miúdos irem dormir

O calendário do Europeu parece ter sido fruto de uma cabala entre altos dirigentes da UEFA e os meus dois miúdos. Tudo para me impedir de ver a bola.

SayWhat-ThomasHawk-CC-BYNC
Say What, por Thomas Hawk, CC BY-NC

Jogos às 14h. O meu mais velho, de 2 anos, num dia regular dorme a sua sesta das 12h30m às 14h30m. Lá tenho 30 minutos de bola para ver, mas quando ele acorda tem sempre atividades imperiosas para fazer acontecer, como ir ao bacio, receber um mimo, transferir todas as panelas da cozinha para o corredor ou fazer um puzzle com um dinossauro. Num dia menos regular, às 14h ainda o estou a tentar adormecer. Ou então ele simplesmente dispensa a sesta. E lá se vão os meus 30 minutos de treinador de bancada e tudo o que me resta são as repetições

Não é mau.

 

Jogos às 17h. A minha mais nova, de 6 meses, usa o período das 17h às 19h para “descomprimir”. Descomprimir significa libertar a energia que lhe sobra no final do dia, antes de aterrar num sono sossegado e longo. Bom para os pais dormirem. Mau para ver a bola. Significa que às 17h ela pede uma nova brincadeira a cada 2 minutos. Não quer estar no mesmo sítio mais de 5 minutos. E nem sequer a mesma divisão serve, tenho mesmo que sair da sala. Às vezes engano-a e tento ir para a varanda da sala, mas a UEFA deve tê-la avisado. Ela só quer a varanda do quarto, do lado de fora da divisão mais longínqua da sala. Com sorte, vejo a repetição dos golos ao intervalo.

Mau.

 

Jogos às 20h. A mais nova já acalmou, o mais velho já tomou banho, já jantámos. Às 19h30m o meu mais velho começa a ficar com sono. A transferência para a cama é uma rotina muito agradável, gostamos que seja um momento partilhado, calmo, com as coisas a seu tempo e boa disposição. Mas em dia de bola, tenho 30 minutos. Já tentaram explicar a um miúdo de 2 anos que hoje, só hoje, só mesmo hoje, porque dá a bola, temos que fazer tudo mais depressa? Que em vez de 2 livros antes de dormir, só vamos ler 1? E rápido? E não vale a pena teimar, quanto mais pressa o pai tem, mais desperto o miúdo fica – claramente obra da UEFA. Tudo o que me resta é damage control: aposto comigo mesmo que os golos vão ser numa das partes do jogo e abdico da outra. Ponho o miúdo a dormir durante a primeira parte e vejo a Segunda. Resulta em jogos da França, que a maior parte das vezes só marca a partir dos 85 minutos. Ou então vemos os 2 a primeira parte, à mistura com puzzles de brum-brums e piu-pius na minha esperança de ver algum golaço, que com alguma sorte minha acontece naqueles segundos em que realmente consigo olhar para a televisão.

Muito mau.

 

Jogos de Portugal às 20h. Este é requinte de malvadez. Das três alternativas, esta é a pior. Às 14h e às 17h, sempre consigo dividir a atenção e ir espreitando o que acontece. Às vezes há dias bons e ainda consigo ver uns 7 a 9 minutos completos de um jogo. Adiciono a isso uns minutos em diferido, com as repetições ou rebobinando uns minutos, mas faz-se. Às 20h, é impossível.

É péssimo.

 

Se eu mandasse na UEFA, os jogos eram às 7h, 9h e 11h da manhã.

É a melhor hora. Os miúdos já acordaram, por volta das 6h da manhã. O pai já bebeu café. Num dia bom, já foi ao duche e comeu uma sandes. O período da manhã é quando os miúdos estão mais frescos. Estão mais pacientes. Exigem menos supervisão. Entretêm-se sozinhos e durante mais tempo.

Dawn-EdDunens-CC-BY
Dawn, por Ed Dunens, CC BY

Mesmo a mais nova, que precisa de uma sesta a meio da manhã, combate menos o sono, é mais fácil de manobrar durante a manhã. Os 15 minutos de intervalo usados de forma eficiente, com um pano e white noise no telemóvel, à entrada para a segunda parte, já a miúda está esparramada no meu peito a respirar de boca aberta como se não dormisse hà 2 dias. Às 13h acaba a bola. O que é excelente, porque já almoçámos e está na hora do mais velho ir para a sesta. E assim, da parte da tarde, em que os miúdos ficam mais cansados e impacientes, não há bola.

Ideal!

 

Tive que me adaptar, inventei o bola-wearing.

Bola-wearing é a atividade em que um pai, entusiasta de babywearing e de futebol junta as duas práticas para conseguir encontrar um compromisso entre estes dois mundos. É o combinar de ver um jogo e ter um miúdo no pano, com dois objetivos em mente: ver o máximo de minutos possível do jogo e por o miúdo a dormir.

ChampionsLeagueBall-Prakash-CC-BYND.jpg
Champions League Ball, por Prakash, CC BY-NC

Os pais que praticam bola wearing partilham um conjunto de práticas:

  • A amarração é feita nas costas. Para impedir que a criança veja o jogo;
  • As luzes estão todas apagadas. Para criar um ambiente adequado para a criança adormecer;
  • O pai abdica da cervejinha durante o jogo. Não há nada pior que acordar um miúdo acabado de adormecer no pano com o tilintar de uma mini, tudo porque não vemos o que estamos a fazer, porque as luzes estão apagadas;
  • O jogo não se vê na televisão. A luminosidade é brutal e invade a sala toda. Além disto a televisão tem um som característico só por estar ligada, um buzz que parece atuar diretamente na capacidade dos miúdos adormecerem, inibindo-a, é uma aposta perdida, desliguem a televisão;
  • O jogo vê-se através da aplicação da Meo, Nos ou Vodafone. Preparem-se antecipadamente, pôr essas apps a funcionar normalmente envolve alguns passos complicados, façam-no uns dias antes, com tempo e testem com outros programas de televisão, caso contrário passam o jogo todo a tentar configurar a app e a dizer asneiras, num cenário em que adormecer o miúdo já é uma miragem;
  • O tablet é uma alternativa à televisão, mas seguro, seguro, é o telemóvel. Baixa luminosidade, ecrã pequenino, silencioso, fácil de segurar. Por muito que o miúdo tente, com a amarração nas costas, luzes apagadas e o jogo a rolar no telemóvel, a única coisa que ele vai ver é um feixe de luz ligeira e indireta a diluir-se numa escuridão total.

Perfeito

E assim lá estamos nós, pais babados, orgulhosos do bola wearing, com o miúdo bem apertadinho, com a cabeça encostada nas nossas costas. Balanceamos o corpo para os lados, posicionando o peso alternadamente em cima de cada um dos joelhos. Direita. Esquerda. Direita. Esquerda. Cabeça inclinada para baixo, telemóvel seguro pelas duas mãos junto à barriga, de modo a que seja impossível que a luz incomode o nosso pirralho. Olhos cerrados a fitar um Cristiano Ronaldo com 1,5 cm de altura a correr no ecrã do nosso telemóvel.

É um misto de satisfação (estou a ver a bola!) com uma sensação de sucesso (o puto dorme!) e um piquinho de vaidade (consegui, sou um bola wearer). Mas tem também toda a esperança (é agora que vamos marcar!), terror (se marcarmos, tenho que festejar em silêncio!), alguma ansiedade (por favor, ninguém me telefone agora!) e de tentação (vou sacar aquela mini, não?)

TrullySagres_Renata-F-Oliveira_CC-BYNCND.jpg
Trully Sagres, por Renata F. Oliveira, CC BY-NC-ND

E lá ficamos em pé, minuto após minuto, na cozinha escura e silenciosa, a fitar as miniaturas a percorrer o telemóvel, em que o único som de fundo é o respirar do nosso miúdo, apertadinho nas nossas costas.

Disposições finais

Nesta história exagero e distorço bastante uma realidade familiar, na qual até incluo alguns pontos que são pura ficção. Achei importante clarificar que tentei ironizar um pouco alguns dos dilemas e tentativas que, tal como eu, muitos outros pais já devem ter sentido quando lhes apetece mesmo muito ver “aquele” jogo e procuramos todas as alternativas possíveis e imagináveis para o conseguirmos conciliar com os nossos rituais familiares.

Mas quando “aquele” jogo não é compatível com os miúdos, não hesitem. Para a semana há outro jogo e dentro de quatro anos há outro Europeu, mas o dia de hoje com os vossos filhos, só o vão ter mesmo hoje.

O que descobri nesta minha aventura foi que o babywearing conciliou duas coisas que à partida me pareciam completamente incompatíveis e permitiu-me disfrutar um pouco da bola sem ser intrusivo na nossa dinâmica familiar habitual.

Para mim, já ganhei este Europeu.

FoiDestaFoto da minha TV tirada com o meu telemóvel

E não é que ganhámos mesmo?!

Agora chamem as vossas esposas para vos escolherem o melhor tipo de porta-bebés para verem o resto dos jogos.