Babywearing de braço ao peito

Termina hoje uma história que durou 25 meses. Estou no Parque das Nações e saí agora da minha última sessão de fisioterapia. Ganhei! Mas mesmo hoje, não foi fácil, com uma gastroenterite a quedar-me por casa e a querer intrometer-se no caminho…

Não deixei…

Começou assim sem querer

Começou um Sábado a sair da casa dos avós, saco numa mão, o meu mais velho na outra. Rodei a descer as escadas ouvi um click no ombro direito.

Foi só um mau jeito, já passa!

Mas não passou. Piorou. Durante a noite a dor apertou e no dia seguinte de manhã mal me mexia. Fui ao hospital. Raio-X. Inflamação aguda no supraespinoso. Na altura não percebia nada disto e pensei que um anti inflamatório resolvia.

Amanhã já estou bom e vou trabalhar!

Mas não melhorei. Ainda me pus a caminho na Segunda-feira, a tentar conduzir, mas quando tentei meter a 3ª, o ombro prendeu. O que vale é que sou um choninhas a conduzir e ia devagar, se tivesse a mania que sou o Louis Hamilton da Póvoa de Santa Iria, o resultado podia ser diferente.

As minhas primeiras semanas de baixa

Com direito a visita ao ortopedista e fisiatra, ecografia e outro raio x. Depois fisioterapia.

Melhorei um pouco, já me conseguia mexer, mas a dor estava lá. Os medicamentos passaram a ser uma parte certa ao pequeno almoço e ao jantar. Ganhei 6 quilos e arruinei os intestinos, tudo para manter a dor suportável. Nada que 9 meses de medicação não tenha resolvido.

Medicação para tratar o efeito da medicação. Fantástico, pareço uma estrela de rock, tipo Jim Morrisson!

O equilíbrio da prisão e a reinicidência

Encontrei um equilíbrio. Uma hora por dia de exercícios baixavam a dor para um nível aceitável, sem ter que recorrer a drunfos. Só não podia faltar. Se falhasse um dia, na manhã seguinte acordava moído outra vez, com o ombro preso e o braço inutilizado. Todos os dias punha a família a dormir e esticava-me sozinho no chão da sala a fazer o meu km extra, para poder acordar minimamente saudável.

2016-08-28 21.25.44

Um dia bom, tive companhia nos exercícios, foto por Julia Wronikowska, All Rights Reserved

E depois aconteceu outra vez. Acordei um dia e o braço não mexia. Mais comprimidos, mais fisioterapia, mais exames, desta vez ressonância magnética. Calcificação no ombro, junto do supraespinoso e sempre que o tendão lá toca, nova inflamação, dor insuportável e braço inutilizado. Mais fisioterapia. E depois outra vez…

Vou à faca.

Disciplina de samurai

Acho que nem hesitei, tinha que me livrar disto. A única questão era decidir quando, porque o pós operatório ia exigir 1 a 2 meses de fisioterapia até voltar a mexer o braço, seguidos de 6 a 12 meses de fisioterapia.

É tudo uma questão de determinação!

Eu tinha a certeza que conseguia recuperar mais rápidodo que os 2 meses. Dois dias após a cirurgia já me sentia melhor do que nos últimos 18 meses. E três dias depois comecei a fisioterapia. Mas para mim, a fisioterapia continuava em casa, e repetia 1 hora de exercícios 3 vezes ao dia. Gelo após para desinflamar e de volta ao tapete para mais exercícios.

Ao fim de 7 dias tirei o braço do suporte e ao fim de 2 semanas voltei a conduzir. 4 semanas depois voltei ao trabalho e volvidas 6 semanas o cirurgião desejou-me “uma vida feliz”. Hoje, ao fim de três meses termino a fisioterapia.

Gerir a dor um dia de cada vez

Nestes 2 anos muito aconteceu na minha família. O meu rapaz aprendeu a andar… e a falar… e a argumentar com o pai!

Cama não, ainda é cedo! Mais logo…

A minha pequenita nasceu, deu-nos um susto grande com uma bronquilite aos 7 dias, mas espevitou e com 8 meses já se empoleira por todo o lado. É uma miúda determinada e às vezes dá connosco em doidos, mas é um encanto.

Foram 2 anos de gestão da dor. Exercícios todas as noites para fortalecer o ombro e reduzir a inflamação, para passar o dia equilibrado e chegar ao final do dia capaz de aguentar o banho do mais velho, ou vestir-lhe o pijama ou adormecer a mais nova, tudo atividades de deixar os olhos humedecidos e a arder, tal era a dor. Ir cedo para o trabalho, porque tinha que sair cedo para fazer fisioterapia. E depois em casa, repetir os exercícios outra vez… O tempo parecia que não chegava, era o primeiro a acordar e o último a adormecer só para conseguir manter o tema suportável.

Babywearing foi um dos meus aliados

Sem os panos tinha passado 2 anos sem pegar nos meus miúdos. Simplesmente não tinha força para lhes pegar, ou doía, ao ponto de me escorregarem das mãos. Fechar uma fralda levava-me lágrimas aos olhos e ajudar o mais velho a vestir as calças era quase insuportável. Nem sequer conseguia andar na rua e dar-lhe um dedo para ele segurar.

Experimentem. Num dos próximos dias cheguem a casa e não toquem nos vossos bebés, só por 5 ou 10 minutos. Vão ficar a arder por dentro até lhes darem um aperto forte contra o peito. Agora imaginem 2 anos.

Não dá!

Mas o ring sling resolveu parte destes problemas. Com a argola em cima do ombro lesionado, o braço direito praticamente não fazia força. A mãe ajudava a por a pequena no sling e lá andava eu derretido com a miúda a ressonar de boca aberta contra o meu peito.

2016-08-28 21.27.39Foto por Nuno Cesar Nunes, All Rights Reserved

E descobri o mei-tai, o rei dos porta-bebés, em que o ajuste prega por prega é suave e simples e até lesionado o conseguia fazer. Doía, mas conseguia fazer sozinho, ao contrário de um pano, que não tinha força para o apertar. E descobri também o mei-tai com ombros almofadados, que deu para carregar o mais velho com 12 quilos, mesmo quando o braço ainda não aguentava sequer segurar um copo de água. Até deu para ir à praia!

2016-08-28 21.28.36.jpgFoto por Julia Wronikowska, All Rights Reserved

Todos nós somos como o Dr. House

E descobri também durante estes 2 anos que, com a quantidade certa de dor, todos nós nos tornamos intragáveis como o Dr. House. Até sabia que sempre fui um sortudo, que nasceu com o rabo virado para a lua, e que este era um problema menor, comparado a tantos outros por esse mundo fora. Mas a dor picava-me os miolos até à exaustão e acabava-se rapidamente a paciência e o bom-senso.

Mas encontrei a paciência de bebé para o seu pai rabujento, que parece não ter limites. E a certa altura, já não os apertava para os acalmar, mas para me acalmar a mim. Respirar fundo, cheirá-los e senti-los sossegados, para recuperar energias e aguentar outro dia em que a única coisa que era certa era aquela dor pica-miolos.

Já chega. E agora, vou para casa apertar os meus miúdos.