O que são cenas de pai?

Começo hoje uma nova secção no blog, sobre a maior aprendizagem da minha vida. O que é ser pai? Sou pai há pouco tempo e não me atrevo a dizer que percebo disto, pelo contrário, mas tudo o que já aprendi em dois anos supera qualquer outra aprendizagem na minha vida.

Aqui vai…

Foto de topo de página: Fatherhood, por Thomas Hawk, CC BY-NC

Cenas

Cena é uma palavra antiga, proveniente do latim. É rica em significados, tanto literais como informais. Dos vários significados que a palavra pode ter, há alguns que me levam a usá-la frequentemente para descrever o meu dia-a-dia.

imageFonte: priberam.pt

Panorama, vista, paisagem

É algo que se vê, que se desenrola à frente dos nossos olhos, com ou sem movimento. É o desfolhar de uma sequência de retratos, no qual muitas vezes já adivinhamos qual o desfecho, mas continuamos a ficar surpresos com a forma como chega ao fim. É tudo o que nos acontece diariamente com os nossos putos e que achamos tão belo, tão único, tão especial que nos faz querer sair do nosso próprio corpo e ver a cena de fora, connosco lá inseridos! Digam lá, quantas vezes vos acontece?

A mim, pelo menos uma mão cheia todos os dias.

Objeto, acontecimento ou qualquer coisa

É uma cena que acontece, uma cena que tens que contar, só uma cena, uma cena daquelas, que te apanha desprevenido e que acreditas ser uma daquelas memórias para a vida. Não descansas enquanto não a verbalizas, mas quando o fazes, esvai-se entre os dedos, quase como se fosse de areia seca e reparas que afinal foi uma cena banal, normal, sem piada nenhuma. Só foi espetacular porque a viveste com os teus filhos, cena essa que vivida é soberba, mas contada não tem grande piada…

Que cena!

Birra, fita

Comportamentos mimados e exagerados. Do Pai. E dos filhos. Todas as cenas são minhas, mesmo as dos miúdos. Especialmente as dos miúdos! Ou sou só eu que fico com as bochechas a arder por dentro quando os meus miúdos sacam daquelas cenas de bater com os pés? Sim, as cenas dos miúdos são as nossas cenas!

Mas há outras? Claro que sim, há as birras do pai, que também tem direito, ainda para mais quando foi um dia no passado foi filho único! Porque dá a bola à hora do puto ir dormir. Ou porque queremos falar de algo importante mas os miúdos insistem em interromper para nos dizer a cor da toalha de mesa. Ou porque têm que repetir quatrocentas vezes a cor da toalha de mesa.

Então é a mãe? Do pouco que aprendi, aprendi isto: a mãe não tem birras. Tem cenas, das outras que referi, mas não tem birras. Porquê? Para mim, a palavra super-poder é aplicável neste contexto.

E mais não digo, uma mãe que se pronuncie!

De

Preposição. Permite fazer a ligação entre as cenas e o pai, atribuindo-lhe posse.

Não sei que vos diga. Espero sinceramente que não tenham vindo ler o post por causa da preposição…

Pai

Eu. Tu. O meu pai. O teu pai. Todos aqueles que têm filhos. Criadores, benfeitores.

image

Fonte: priberam.pt

Todas estas palavras refletem sem dúvida a aspiração de qualquer pai. Todos nós queremos ser o protetor e o benfeitor dos nossos filhos. E claro que me sinto orgulhoso no papel de criador, ao nível de um artista. A definição dá uma noção de controlo, sabedoria, quase perfeição.

Mas a dura verdade é que na maioria das vezes não fazemos puto ideia de como proceder. Tentamos algo na esperança que corra bem. E se não correr, logo pensamos noutra tentativa. E depois noutra. E algumas delas, correm mal. Não funcionam. São erros. E por vezes perdemos a paciência e ainda pioramos a situação até levarmos as mães à beira (ou bem para lá) de um ataque de nervos.

Benfeitor?!

A definição não reflete o carácter experimental de ser pai. Não reflete a fé que pomos em cada tentativa. Nem a ansiedade por que a próxima tentativa funcione. Nem o alívio que é quando finalmente acertamos.

Também não fala sobre tentativa-erro ou sobre navegação à vista, que é como me sinto a fazer a maior parte das vezes. Nem refere o principal papel de pai, a sua maior responsabilidade, sua maior cena, a sua maior responsabilidade, a sua cena.

Aprender. A cena de pai.

Da forma como vejo as coisas, a definição universal sofre de um erro de imparcialidade. Descreve aquilo que os filhos veêm nos seus pais e aquilo que os pais gostariam que fosse a realidade, aquilo que os pais pretendem atingir.

Eu simplesmente diria “pai, s.m., aprendiz”.