Porque razão a FNAC é o ginásio mais barato de Portugal

Há semanas que sabia que tinha que comprar uma prenda para a esposa. Fui deixando os dias passar, como qualquer pai que se preze, até angariar a motivação certa: o pânico de última hora.

Porra, é já amanhã! Tenho que ir comprar a prenda hoje…

E fui…

Verdade seja dita, já sabia exatamente o que comprar. Foi o que me valeu… Já tinha pensado e sabia onde tinha que ir, como iria fazer. No dia consegui safar-me do trabalho mais cedo, para ter tempo de comprar a prenda e chegar a casa à hora normal, para não levantar suspeitas. Se chegasse mais tarde durante um dos dias calmos de Natal, ia desmascarar a minha surpresa.

Sabia que queria ir à FNAC, comprar um CD. Sabia qual era o CD. Sabia que não sabia onde o iria encontrar, mas não ia perder tempo, ia direto a um dos elfos perguntar onde estava o meu CD. Ao todo, estimava um total de 120 a 150 segundos dentro da FNAC e zarpava dali para fora. Estava com pressa. Queria ir para casa estar com a família e brincar com os meus miúdos.

Quem tem miúdos sabe a sensação de urgência que estou a descrever…

Cada minuto contava e o bater dos segundos no meu relógio de pulso era contundente. E com a pressão acabei por menosprezar algumas variáveis circunstanciais…

O trânsito de Natal

Comecei por apanhar aquele trânsito de Natal maravilhoso. Nem era muito complicado, mas é daqueles chatos e irritantes. Daqueles que só aparecem na última rua antes de chegares ao teu destino.

Desci do aeroporto à Praça José Queiróz e saí na segunda saída. E agora à esquerda para a Via Reciproca, que para quem não sabe é a rua que passa debaixo da Estação do Oriente, paralela à conhecida Avenida de Berlim.

Mal virei, vi as luzinhas vermelhas ao fundo. Trânsito. Mais uma vez, nem era nada de transcendente. Era simplesmente o trânsito de 3 faixas a entrarem numa rotunda, em que o carro da direita quer ir para a esquerda e pára, porque o carro da esquerda quer ir para a direita e pára, e o carro da faixa do meio, na dúvida se há-de bater no Mercedes da direita que quer ir para a esquerda ou no Opel da esquerda que quer ir para a direita, pára também.

E pára também a fila imediatamente atrás, sem sequer poderem ter indecisões de para onde querem virar. E a fila seguinte também pára… e a fila seguinte também… e a seguinte também… Mas volvidos 3 minutos até escoou bem.

Afinal queriam os três ir em frente, mas simplesmente em faixas diferentes daquelas onde estavam…

Estacionar

Lá superei a etapa e avancei com vigor para a rotunda final e fiz-me ao parque subterrâneo.

Agora sim, vou recuperar aqueles minutos perdidos…

Esta esperança durou 20 segundos, até ver o Ford Focus à minha frente fazer-se à cancela da Via Verde com um ligeiro excesso de zelo e calculismo. Foi avançando em passo caracol até conseguir, a muito custo, parar o carro, como se o pedal do travão fosse de um Capri e não de um Focus.

Sim, eu sei, este comentário é para “gajo”. Adicionem tags aos maridos e amigos que eles explicam!

Escusado será dizer que a manobra foi tão calculada e zelosa que levou a que o Focus parasse a 2 metros do botão para abrir a cancela e aquilo que devia demorar 3 segundos, obrigou a que o rapaz tentasse chegar ao botão uma primeira vez, para concluir que não conseguia, para que tirasse o cinto de segurança e tentasse uma segunda vez, para concluir que não conseguia, para que se pendurasse na janela do carro para tentar uma terceira vez, para concluir que não conseguia, até que finalmente abriu a porta do carro, saiu, carregou no botão, entrou no carro e arrancou à pressa para entrar no parque.

Mais um par de minutos para o galheiro… enfim, entrei no parque, agora sim, é sempre a andar…

Piso -1 completo

A sério?! Segui a ritmo rápido, com os pneus a rangerem no chão pintado do parque, até dava a sensação que ia numa bomba a rasgar o asfalto em alta velocidade. Prossegui pelo labirinto mais uns minutos até que estacionei. Sai do carro e tranquei-o por cima do ombro já em passo acelerado em direção às escadas rolantes.

Parei e olhei para trás. -2, Azul, D7. -2. Calculei o caminho mentalmente. Estou no -2, vou para a FNAC. Piso 3. 5 pisos. CD. Fiz um reconhecimento da loja na minha mente. Os CDs estão no piso de cima da FNAC. Piso 4, portanto. 6 pisos, e não 5. Por um segundo senti que, por muito que andasse, estava sempre cada vez mais longe do meu objetivo.

Arranquei, determinado em recuperar o tempo e subi as escadas em passo largo, a ultrapassar a velocidade da própria escada rolante, como que a rebobinar os ponteiros do relógio a cada passada que dava. Tinha que acelerar para voltar para a família mas, acima de tudo, para não ser descoberto.

Subi as primeiras escadas, virei à direita, subi as segundas escadas. Estava fora do parque de estacionamento e já estava no Centro Comercial.

Ziguezagueei entre as pessoas, ultrapassei-as, desviei-me delas, tive mesmo que fazer algumas trocas de direção bruscas para evitar colisões. Passei pela direita, pela esquerda, até devo ter cortado à frente delas, mas era importante. Eu ia em missão de socorro urgente, como se fosse uma ambulância a romper por entre o trânsito distraído.

Podia ter trazido uma sirene… ou uma buzina de ar comprimido…

Cheguei…

Subi as segundas escadas, depois as terceiras. Atravessei o corredor, já conseguia ver o sinal da FNAC, que se apresentava agora tão apetecível como a linha de meta de uma meia maratona. Era um sonho, um êxito, um orgulho, um alívio.

Entrei na loja. Olhei à volta, fugi da zona dos telemóveis, quem compra telemóveis anda sempre a um passo muito lento, tinha que evitar zonas de trânsito. Dirigi-me às escadas dentro da FNAC e soou o alarme…

Oh, não, promotores da Vodafone… Fibra a 28,90€

Desviei o olhar e acelerei ainda mais o passo e fiz um ar de quem não tem nem usa a internet e que só entrei neste antro de tecnologia porque preciso mesmo mesmo de algo que não encontro no Aldi…

Subi as escadas e fui direito ao balcão. Tinha chegado ao ponto de inflexão. A fase difícil terminou e sabia que agora tudo ia acontecer num piscar de olhos. Perguntei pelo CD, caminhei 3 segundos e foi-me colocado o CD nas mãos. Agradeci, virei-me e saí e ao fim de 20 segundos já estava a descer outra vez as escadas, em direção à emboscada da Vodafone.

Cheguei à caixa em passo rápido, com 7 promotores vestidos de vermelho a seguirem-me e a perguntarem se ainda tinha fidelização. Paguei e andei. Apressei-me à saída e juro que imaginei a FNAC a dissolver-se atrás de mim como se se tratasse de um castelo de areia atingido por uma onda lenta e suave e percebi que tinha vencido.

Desci, entrei no carro e arranquei para casa. Parei na Via Verde e reparei no valor. 40 cêntimos. Os 120 a 150 segundos que estive na FNAC custaram-me 15 euros. Os restantes 15 minutos de jogging para entrar e sair do Centro Comercial, custaram-me 40 cêntimos.

3 voltas destas por dia e ficava em forma…

#cenasdepai

Foto de topo de página por Víctor Izquierdo Pérez, CC BY-ND