O til, a vírgula e o olá

Desde que comecei a blogar, aprendi que escrever é apenas 20% desta maravilhosa atividade.

O restante tempo é investido em múltiplas ações, como navegar em bancos de imagens para descobrir fotos interessantes para embonecar os posts, fazer networking em eventos ou mesmo online para conhecer novas histórias e proliferar o nosso manifesto, a relacionar-me com outros bloggers, escritores e leitores para aperfeiçoar a técnica ou o conteúdo, e a fazer editorial, a apoiar os restantes autores, no meu caso autoras.

Mas sobretudo, a ler outros blogs, páginas, fóruns e comunidades. A ouvir. A tentar compreender o que procuram as pessoas, o que as motiva a ler, o que lhes pode ser útil, de valor.

A tentar encontrar assunto.

Não posso continuar a ser anti social media

Para tal não podia continuar fechado no meu casulo. Tive um período de glória da minha vida em que fazia login no facebook e o meu feed estava vazio. Sem posts. Sem informação. Sem nada. É o cenário ideal para alguém completamente focado numa missão, como a que tinha na altura. É péssimo para um blogger.

E lá comecei a seguir as minhas marcas preferidas. E a acompanhar os influencers com os quais me identifico. E comecei a juntar-me às comunidades e a seguir páginas, blogs e bloggers. Babywearing. Babywearing Love. BLW. Pais & Filhos. Mamãs, papás, bebés e crianças. Co-sleeping/Attachment Parenting. O mundo da Bimby. A pitada do pai. Cenas e Coisas de Pai. Life of DadFatherly. Dad and Buried. Cenas e Coisas de Pai. O melhor PAI do mundo. Aderi a todas. Segui todas. Por vezes sinto que sou um seguidor muito silencioso, escrevo pouco, reajo pouco, respondo pouco, mas por lá ando, essencialmente a ler e a ouvir.

O til dá contexto

Nestas leituras apercebi-me que os smartphones, com os seus teclados virtuais, equipados com corretores automáticos multi-língua, criaram alguns novos fenómenos que são agora socialmente aceites, sendo totalmente reprováveis se escritos à mão numa folha de papel.

O til é um dos artefactos da nossa escrita que mais sofre de erosão neste mundo digital manipulado pelo polegar e pelo indicador. Muitas vezes fica de fora da nossa atenção e regularmente é esquecido pelo corretor ortográfico.

E desaparece.

Não é drama. A esposa escreve-me para comprar peras e romas. Eu sei que não vou comprar várias capitais de Itália. Ou diz-me que está frio e que devo trazer a camisola de la. É fácil de entender a que se refere.

Mas quando vês um post no grupo de apoio à família, para o qual a pressa ou a tecnologia resolveram negligenciar o til…

Olá mamas…

A vírgula dá-nos uma pausa

Mas não é só a acentuação que sofre deste abandono. A pontuação segue o mesmo caminho. As virgulas parecem ser coisas do passado. Agora carrega-se no ENTER e a vírgula está implícita. É suposto haver uma pausa na leitura entre o balãozinho que apareceu no telemóvel e o próximo balãozinho que irá aparecer.

E se as conversações se limitassem ao Messenger, What’s Up e SMS, tudo bem. Mas quando escrevemos um texto, mesmo que breve, uma ou duas linhas, num email ou num post, a vírgula é suposto dar a pausa necessária para se entender a expressão que aí vem.

Olá, mamãs e papás…

E se o olá cai em desuso

Porque por vezes dizemos “Bom dia”, “Boa tarde” ou “Boa noite”. Ou porque somos mais efusivos e começamos com um “Viva”. Ou porque queremos saudações no plural, e sai-nos um “Bons dias”, um “Boas tardes” ou um “Boas noites”. Ou porque queremos acelerar o passo e precisamos apenas de um “Boas”. Tudo isto são variantes possíveis de uma saudação inicial, mas no digital a versão mais curta é normalmente a mais apetecível.

Boas!

Mas quando a acentuação e pontuação são esquecidas, e o tempo é escasso, e a saudação é curta e o corretor ortográfico é permissivo e a sociedade aceita, eu acedo a um grupo, abro um post e leio:

Boas mamas

Tenho uma dúvida sobre o que fazer, aconteceu-me isto, aquilo e acoloutro, o que acham, qual a vossa opinião?

Vivi num mundo em que eu tinha opinião sobre mamas e agora vivo num mundo em que se pede opinião às mamas. O que vale é que são todas boas, as mamas.

E agora, em qual destes três casos foi erro, em qual foi o corretor ortográfico que deixou o til de fora, e em qual foi propositado?