Um pai a testar um porta-bebés

Cheguei a casa e estava uma caixa pequena dos CTT à entrada. Ainda fechada, e endereçada à minha esposa. Falta um mês para o Natal, deve ser a minha prenda. Parecia ter o tamanho certo para albergar diversos DVDs.

É um boxed set com as 23 temporadas do Top Gear!

Soltei um “you’ve got mail” meio desinteressado, meio em pulgas para receber a confirmação de que tinha 170 episódios do Clarkson, May e Hammond à minha espera. Na verdade é para ti, disse-me. A esperança invadiu-me e comecei a fazer contas de cabeça.

170 episódios dá para ver um a cada 2 dias durante quase um ano. Ou dois a cada 4 dias, que não me parece muito viável conseguir tempo para ver DVDs dia sim, dia não. Ou três a cada 6 dias, que é como quem diz uma semana. E se alguma semana não for possível, fico com uma maratona acumulada de seis (!!!) episódios para ver na semana seguinte.

Podes abrir…

Disse a Julia. Perdi o norte. Tremeram as pernas. Senti uma tontura. Isto é bom demais para estar a acontecer.

Vou poder começar a ver os 170 episódios já hoje?!!

Mas muito rapidamente o entusiasmo transformou-se num aperto na barriga. O meu aniversário é em Agosto, mas estamos em Novembro. O Natal ainda vem longe, não faz sentido abrir a prenda tão cedo. E o prémio do marido do ano, que sei que vou ganhar, só é atribuído em Fevereiro…

Foi então que me ocorreu algo impensável. Um cenário que já não conseguia equacionar. Quase como se me tirassem o chão de baixo dos pés… Li outra vez o remetente. Alexandra. Li outra vez o destinatário. Julia. Porque razão a Alexandra enviaria à Julia uma caixa com DVDs do Top Gear para mim? Deu-me um arrepio gelado e então percebi e imaginei-me debaixo de chuva, agarrado a uma vedação com arame farpado, de braços esticados, com a cabeça pendente para a frente, olhos fechados e dentes cerrados e a garganta a arder de gritar “nã-ã-ã-o”, tal como fez o Brad Pitt no filme 7 anos no Tibete…

Esta caixa não tem DVDs do Top Gear…

É um pano

Também conhecido nalguns fóruns como #fluffymail. Recuperei do choque e retomei a minha posição de indagação, precisava de perceber tudo. Mesmo não sendo DVDs do Top Gear (#snif), porque razão a Alexandra enviaria um pano para a Julia que era na verdade para mim? Eu já tenho um pano e uma das quatro coisas que um pai sabe sobre babywearing é que um pano é mais do que suficiente para um pai.

Um pai tem um pano, aprende uma amarração e repete-a o resto da vida. E pronto. Não preciso de mais outro pano.

És voluntário para testares um pano

Explicou-me a Julia. Não disse nada, fiquei perplexo. Sim, sou casado com uma consultora de babywearing, que é uma espécie de samurai de enrolar putos em panos. Sim, participo ativamente no nosso blog sobre babywearing e #cenasdepai. E sim, apoio incondicionalmente a esposa neste assunto.

Mas sejamos francos, na escala de proficiência de babywearing, estou no nível troll. E o que escrevo para o blog, chamo-lhes #cenasdepai mas são essencialmente devaneios. E o apoio que dou à esposa é carregar a mala com 30kg de panos sempre que ela tem um workshop.

Não sei se me sinto qualificado para isto…

Como é que isso se faz?

É simples. É usar o pano, tirar fotos e partilhar e ir escrevendo detalhes do que achamos, de como nos sentimos, de como funciona o pano e das suas características. Continuo a não me sentir muito qualificado para isto, mas espera… basta passar pela situação, tirar fotos e lançar umas ideias sobre o que me vai na cabeça? Mas isso é o que eu já faço todas as semanas no blog

O post tem que ser sério? Existe algum tipo de protocolo? Linguagem específica que seja preciso usar?

Não

Acho que não é verdade. Com os papás testers o critério é permissivo, mas imagino que as mamãs testers tenham montes de jargão específico, cheio de termos complicados e siglas e acrónimos. E acredito que tenham vários tipos de testes e verificações, à velocidade de amarração, à dureza e aderência do pano, à versatilidade na utilização, à adequação a diferentes condições climatéricas, tipos de piso, tipos de utilização.

Então é tipo um Top Gear, mas sobre panos… Alinho, vamos a isso!

O meu veredito

Ao início o pano parecia esquisito, porque tem um relevo forte e o tecido era tão macio que não parecia muito adequado a suportar um bebé. Mas esta é a primeira impressão de um pai cético e que só gosta de usar sempre o mesmo pano, logo achei que devia dar algum desconto.

Quando comecei a amarrar o pano, algo não jogava bem, mas não conseguia perceber o que era. Quando coloquei a miúda é que percebi. O pano tem elasticidade. Não é um pano elástico, mas tem elasticidade. E eu habituado ao meu pano “Loch Lomond“, duro que nem uma pedra, fiquei surpreso.

Mas a verdade é que a estranheza desaparece rápido. O pano é muito suave, desliza bem e foi muito fácil de amarrar. Mas a beleza vem logo após, quando acabas de dar o nó e parece que a criança não está amarrada, mas sim suspensa e colada a ti, de tão leve que o pano é. E a elasticidade torna-o bouncy, mas não ao ponto de fazer escorregar o nó ou alargar a amarração, apenas o suficiente para amortecer os movimentos e dar a sensação de que a gravidade não se aplica ao teu bebé.

Chegava agora a prova dos 9. A bebé está no pano, foi fácil de amarrar e aos primeiros 10 minutos o pano parece confortável. Mas agora que a bebé adormeceu é que vamos ver o endurance do pano. Vai aguentar uma sesta longa, de uma hora ou mais, sem ceder, sem gerar desconforto ao pai e sem prender a bebé ao ponto de esta acordar por querer ter mais liberdade de movimentos.

Confesso que este pano arrasou na prova dos 9! A sesta foi longa e por momentos quase me esqueci que tinha um pano. A elasticidade mágica permitia à pirralha mexer-se sem perder o aconchego e para mim era muito confortável.

Por fim, já depois da pequenota acordar, voltar a dobrá-lo e arrumá-lo. Mais uma vez, nota máxima, fácil de esticar, sem vincos fortes, sem amarrotar, fácil de estender e dobrar e voltar a arrumar com aspeto de pano que acabou de sair da caixa.

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Gostei. Venha o próximo!