Dia de festa

Há dias assim. De festa. Cheios de surpresas. Estavamos de férias há três dias e finalmente chegámos a casa da mãe da Júlia. Era 4 de Setembro e era dia de relaxar, almoçar com os cunhados e sobrinhos e de celebrar estar em família.

Bolo surpresa

Mas a celebração teve uma novidade, havia um bolo de aniversário para mim, que tinha feito 34 há duas semanas. Um bolo especial, sem leite nem açúcar, por causa da minha alergia e para evitar que os putos fiçassem doidos com excesso de açúcar.

E com um bolo vêm sempre uns minutos de silêncio. A canalhada não resiste a parar o furacão para lamberem os dedos cheios de creme enquanto com os outros esborracham bolo nas bochechas. Ah, e às vezes também comem uns pedaços…

E lá estava eu sentado, como o meu pedaço já no fim e o meu olhar perdido no meu mais velho, como se o tempo tivesse parado e não existisse mais nada no mundo.

Ele estava de pé, calminho junto a uma mesinha de canto, com um pratinho de bolo é um garfo gigante, a lutar bravamente para conseguir levar o bolo a bom porto. Nisto, vira-se para mim, com uns bigodes de creme beije, sorri e agradece, na sua mistura habitual de português e polaco.

Dzieki tata (obrigado pai).

Eu é que é agradeço

A surpresa era para mim. O bolo era para mim. Era a celebração do meu aniversário. E todos se esforçaram para me fazer feliz, e assim o conseguiram. Eu é que tenho que agradecer, pensei. E agradeci de volta, na minha mistura de polaco e português.

Dzieki filho.

Mas só depois de agradecer é que percebi a cena. O meu filho agradecia-me por eu ter feito anos, por haver festa, por haver bolo e por ele estar a comer bolo. Tudo o que fiz foi deixar passar um ano, pensei para comigo. O resto foi obra da minha esposa, dos meus cunhados, dos meus sobrinhos e da minha sogra.

Mas aquele agradecimento fora exclusivamente para mim. Mais uma daquelas cenas de pai que acontecem e nem sabes bem como nem porquê, mas que são um sucesso.

Prenda surpresa

Espanta-me a associação de ideias que uma miniatura de dois anos consegue fazer. O aniversário do pai, o bolo do pai, vou agradecer ao pai.

Mas espanta-me ainda mais a capacidade de agradecer algo. De expressar gratidão, de forma genuína, simples e direta, de apreciar algo e de se sentir grato ao ponto de o querer dizer e de se virar para mim para o fazer, como se lhe tivesse acabado de proporcionar uma experiência acima da vida, de cortar a respiração, que irá guardar na memória para sempre…

E como é que o ensinaste tão bem ensinadinho? A verdade é que não ensinei… Alias, só depois de processar bastante a situação é que percebi a magnitude da cena e que estava perante outra daquelas cenas de pai, ainda maior do que aquilo que tinha percebido cinco minutos antes…

Aprende-se, não se ensina

Lembro-me que só muito tarde na minha vida aprendi realmente o que significa gratidão e lembro-me como foi difícil de enfiar na minha cabeça dura de adolescente e de jovem adulto que não estava sozinho no mundo.

Provavelmente em miúdo até tinha bons modos e agradecia sempre que oportuno e provavelmente o meu puto, apesar de ser um doce de dois aninhos, vai ter também uma fase cabeça dura, que provavelmente lhe vai passar, como provavelmente a minha já passou.

Espero…

Mas esta cena, além de me deixar orgulhoso e babado, fez-me crescer um pouco como pai.

É que pensando a fundo no tema, posso treinar o puto a agradecer tudo e mais alguma coisa. Aplicando a mistura certa de rigor e insistência, qualquer criança aprende a reconhecer em que situações deve puxar de um obrigado, nem que seja para manter os pais no seu canto.

Mas gratidão, essa, aprende-se, mas não se ensina. Só mesmo os nossos filhos a poderão aprender, mas apenas e só no momento certo, e apenas e só fruto da sua própria vontade e maturidade.

A cena que me resta enquanto pai é continuar a explicar o que vou entendendo do mundo e deixar o miúdo fazer as suas próprias contas…

Foto de topo de página por Ben Harrington, CC BY-NC-ND